Nômade digital e empreendedorismo: o que é e o que não é permitido
O visto de nômade digital foi criado para trabalhadores remotos que prestam serviços para fora da Espanha — não para quem quer abrir um negócio espanhol voltado ao mercado local. Existe uma distinção legal importante que determina o que você pode e não pode fazer como titular dessa autorização do ponto de vista empresarial.
Nômades digitais na Espanha podem operar como autônomos (RETA) ou constituir uma Sociedad Limitada (SL) — mas existem restrições importantes: clientes espanhóis não podem exceder 20% do faturamento.
Opções de estrutura empresarial:
- ✔ Autônomo (RETA): forma mais simples — alta imediata, cota € 80/mês no 1º ano
- ✔ SL (Sociedad Limitada): capital mínimo € 3.000, IS de 25%
- ✔ Clientes espanhóis: máximo 20% do faturamento para manter o visto
- ✔ CNPJ no Brasil: pode ser mantido, mas exige planejamento tributário
- ✔ Visto de empreendedor: alternativa para quem quer focar no mercado espanhol
A regra fundamental é simples: a atividade principal deve ser voltada para o exterior. Você pode ter estruturas societárias e atender clientes espanhóis, mas com limitações claras. Entender essas limitações é essencial antes de qualquer decisão empresarial.
Autônomo vs SL: comparativo de estruturas
| Critério | Autônomo | SL (Soc. Limitada) |
|---|---|---|
| Capital mínimo | Nenhum | € 3.000 |
| Tributação sobre lucro | IRPF (19%–47%) | IS 25% (4% na ZEC) |
| Responsabilidade | Ilimitada (patrimônio pessoal) | Limitada ao capital social |
| RETA (Seg. Social) | € 80/mês (1º ano) | € 80/mês se sócio-administrador ativo |
| Complexidade contábil | Baixa | Alta — gestor obrigatório |
| Faturamento ideal | Até € 60–80k/ano | Acima de € 80k/ano ou com sócios |
Autônomo (autónomo): a forma mais simples
O registro como autônomo na Espanha (equivalente ao MEI brasileiro, mas mais amplo) é obrigatório para freelancers que prestam serviços com habitualidade. O processo envolve:
- Alta no RETA (Régimen Especial de Trabajadores Autónomos) na Seguridade Social
- Alta no IAE (Impuesto sobre Actividades Económicas) na Agência Tributária — gratuita para faturamento abaixo de € 1 milhão/ano
- Apresentação de declarações de IVA trimestrais (modelo 303) e IRPF trimestral (modelo 130)
O autônomo pode emitir faturas para clientes estrangeiros e espanhóis, sujeito à regra dos 20% para clientes espanhóis. A tarifa plana de € 80/mês nos primeiros 12 meses para novos autônomos (Art. 31 da Ley de Startups) reduz significativamente o custo inicial.
Sociedade Limitada (SL): quando faz sentido?
A Sociedad Limitada (SL) é o equivalente à Sociedade Limitada brasileira. Faz sentido considerar quando:
- Faturamento acima de € 100.000/ano — a tributação pelo Imposto sobre Sociedades (25%) pode ser mais vantajosa que a tributação no IRPF do autônomo
- Necessidade de separação jurídica entre patrimônio pessoal e empresarial
- Projetos com sócios que precisam de estrutura societária formal
- Interesse em aportar capital e crescer como empresa espanhola ao longo do tempo
O capital mínimo para abertura de SL é de € 3.000 (ou € 1 para SL de Formación Sucesiva, modalidade para quem ainda não atingiu o capital mínimo). O processo de abertura leva 3-10 dias úteis via notário com NIF e registro no Registro Mercantil.
Atenção: o sócio administrador de uma SL que trabalha nela deve se registrar como autônomo societário no RETA, com cota mínima de ~€ 300/mês — sem tarifa plana.
Impacto no visto: o risco dos clientes espanhóis crescerem
O principal risco empresarial para titulares do visto de nômade digital que abrem estrutura na Espanha é o crescimento da carteira de clientes espanhóis acima do limite de 20%. Esse crescimento natural e bem-vindo do ponto de vista comercial pode comprometer a renovação do visto.
Se você identificar que os clientes espanhóis se aproximam ou superam 20% do faturamento, as opções são:
- Solicitar a mudança de modalidade de autorização antes da renovação: de "nômade digital" para "residência por conta própria" (residencia y trabajo por cuenta propia), que não tem restrição de clientes espanhóis, mas tem outros requisitos
- Separar as atividades: clientes estrangeiros como autônomo individual + SL para clientes espanhóis — solução possível mas que exige assessoria jurídica especializada para estruturar corretamente
Manter o CNPJ no Brasil: é necessário?
Não há obrigação de manter o CNPJ brasileiro ao se tornar residente na Espanha. A decisão depende da sua estratégia:
- Manter o CNPJ: faz sentido se você continua emitindo NFs para clientes brasileiros e o fluxo é relevante. Mas atenção: após a saída definitiva do Brasil, a empresa brasileira deve declarar a saída fiscal do sócio, e a tributação dos lucros distribuídos passa a ser considerada no contexto do ADT Brasil-Espanha
- Encerrar o CNPJ: se a totalidade dos clientes é estrangeira (ou espanhola com emissão de faturas espanholas), encerrar o CNPJ simplifica a vida fiscal e elimina obrigações acessórias no Brasil
A decisão sobre estrutura societária e CNPJ deve ser feita em conjunto com um contador especialista em tributação internacional — as implicações são significativas e variam muito por caso.
Visto de empreendedor: uma alternativa ao nômade digital
Para quem quer criar uma startup ou empresa inovadora na Espanha, existe o Visto de Empreendedor (Art. 70, Ley 14/2013), também tramitado pela UGE e com prazo de 20 dias. Diferente do nômade digital, este permite criar empresa diretamente na Espanha sem a restrição dos 20% de clientes locais.
Os requisitos incluem apresentação de plano de negócios avaliado por uma entidade credenciada (como a ENISA — Empresa Nacional de Innovación) que ateste o caráter inovador do projeto. É um processo mais complexo, mas viável para quem quer escalar um negócio com base na Espanha.
Perguntas frequentes — abrir empresa na Espanha como nômade digital
- Posso ter clientes espanhóis como autônomo na Espanha?
- Sim, mas com o limite de 20% do faturamento total. Se você faturar € 5.000/mês, no máximo € 1.000 podem vir de clientes espanhóis. Ultrapassar esse limite não cancela o visto automaticamente, mas pode ser questionado na renovação e comprometer o enquadramento da autorização.
- Abrir uma SL nas Canárias realmente vale a pena para nômades digitais?
- Para quem tem faturamento relevante (acima de € 80k/ano) e está disposto a manter sede efetiva nas Canárias, a ZEC com 4% de IS é muito atrativa comparado aos 25% do regime geral peninsular. Mas exige: sede social nas Canárias, ao menos um emprego local gerado e sócio ou administrador residente. Para autônomos com faturamento menor, o custo de manutenção de uma SL supera o benefício fiscal.
- O CNPJ no Brasil precisa ser encerrado ao me mudar para a Espanha?
- Não. Você pode manter o CNPJ ativo no Brasil — não há incompatibilidade com o visto de nômade digital espanhol. O que importa para o visto é que a renda principal venha de fora da Espanha. A decisão de manter ou encerrar o CNPJ depende de fatores fiscais brasileiros (obrigações acessórias, impostos) — não do visto.
Leia também: tributação e trabalho remoto
Resumo: abrir empresa na Espanha como nômade digital
- ✔ Autônomo (RETA): cota € 80/mês no 1º ano (tarifa plana)
- ✔ SL: IS de 25%, capital mínimo € 3.000
- ✔ Limite clientes espanhóis: 20% do faturamento anual
- ✔ IVA sobre clientes fora da UE: zero (exportação de serviços)
- ✔ Declarações trimestrais: Modelo 303 (IVA) e Modelo 130 (IRPF autônomo)
- ✔ Contador: € 50–150/mês para gestão completa de autônomo
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